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Banco Inter (BIDI4) Comprar ou não Comprar?


Primeiramente, é importante pontuar uma diferença muito grande entre empresa de crescimento e empresa cara. Veja bem, uma empresa de crescimento, não deve estar focada em remunerar acionistas e sim em ganhar mercado. Entretanto, ao mesmo tempo esse crescimento tem que ser convertido em lucro em algum momento pois no final da trajetória, isso é o que realmente importa.


Pagar qualquer coisa em uma ação com a ideia de que preço não importa é simplesmente uma insanidade. Por melhor que a empresa seja, os preços devem justificar o valor intrínseco da companhia. Ao ir no supermercado você vê que o preço de determinado produto não para de crescer, mas o que ele te oferece não varia muito, a consequência é simples, você para de comprar pois o preço para de refletir o valor que ele agrega a sua vida.


E por que eu acho que o preço atual das ações do Banco Inter é inviável a longo prazo e injustificável, mesmo com todas as qualidades dele? Seguem os motivos:


1. Empresas com aumentos de capital constantes, diversos investidores interessados, tendem por si só, serem menos lucrativas. E se atente a diferença de lucro pra lucratividade. O lucro pode até aumentar como aumentou no comparativo anual do último exercício, entretanto, a lucratividade, se medida sobre o ROE, caiu de aproximadamente 7% para 5%.


E isso, basicamente, se dá devido ao aumento do PL proporcionalmente maior do que o aumento nos lucros. A longo prazo isso pode ser sim um problema pois pode representar um erro na avaliação do valor do negócio. Nosso queridíssimo mestre Benjamin Graham, nos alertaria sobre tamanha insanidade nesse P/L.


2. Por mais que você não queira aceitar essa empresa disruptiva é um BANCO. E bancos seguem algumas regras que têm como consequência restringir o crescimento em prol da segurança e uma dessas regras é o Índice de Basileia. Ele representa basicamente, a proporção de empréstimos que o banco cede perante o seu patrimônio. Então, se o Banco do Joellington tem 19% de IB, isso quer dizer que a cada 100 Reais que o Joellington emprestou, ele tem 19 reais em patrimônio. É um índice de solvência/Liquidez.


Hoje, o IB do Banco Inter é de 23,6% e caiu 10 p.p de um ano para cá, ou seja, o banco empresta mais do que cresce seu patrimônio. O limite no Brasil é de 11%.

A longo prazo isso tende a ser um problema gigante devido a forma como o banco opera.





3. Como o banco opera? Todo banco ganha ao capitar dinheiro por X% (via CDBS, LCIS, entre outros) e emprestar esse dinheiro por X + S %. Esse S é o spread e é o que o banco está ganhando na operação. A carteira de crédito do Inter é de 3,9 bi e só a carteira de crédito imobiliário (muito em função da família controladora do banco que é dona da MRV) é de 2,1 bi. Entende o risco? No caso de uma crise imobiliária, ninguém paga, temos um problema grande. Também podemos dizer que para entrar em outros mercados e diversificar a carteira de crédito, o risco de aumento da inadimplência é grande e já começa a dar sinais como foi reportado no último relatório. Isso acontece porque existe uma disputa acirrada por bons pagadores no mercado. Entrando tardiamente, a chance de captar clientes menos qualificados é maior.


Fora isso, como foi citado no item anterior, o Índice de Basileia é um fator q restringe o crescimento da carteira de crédito do banco e consequentemente pode vir a prejudicar as formas de obtenção de receita do banco pois hoje, grande parte desse faturamento se concentra no setor imobiliário. Sem poder emprestar mais, dificuldade na expansão de receitas.


4. Hoje, cada cliente custa 210 Reais por ano (inclusive os inativos) mais um custo para trazer esse cliente para o banco que é de 19,53. 44% dos clientes (1,1 mi dos 2,5mi) não utilizam as suas contas, ou seja, só representam custo para a instituição. Além disso, eles têm um custo de quase 6 reais por saque em banco 24 horas e não repassam o custo para o cliente como faz o Nubank. Essa despesa ficou na casa dos 13 milhões no primeiro semestre, no mesmo período o lucro líquido foi de 45 milhões.














5. O banco Inter hoje possui 87.460 pessoas físicas de acionistas para uma companhia que vale cerca de 15 bilhões de reais.


Porto Seguro vale aproximadamente 16 bi e tem 11.557 pessoas físicas como acionistas.


Cielo, já foi queridinha do mercado uma das mais indicadas, hoje vale aproximadamente 19,5 bi e tem 61.803 mil pessoas físicas como acionistas.


Usiminas vale aproximadamente 11 bilhões e tem 63.659 pessoas físicas como sócias.


Esses exemplos servem para mostrar que as ações da empresa podem sofrer impacto com um “efeito manda”das pessoas físicas e historicamente, empresas queridinhas das PF’s sobem rápido e caem mais rápido assim, ainda mais quando tem um potencial tecnológico gigante alocado no futuro – bolha das pontocom. Muitos desses investidores, inexperientes não saberiam ver seus ganhos derretendo e venderiam com o resto de lucro que ainda restarem, levando a ação ainda para baixo.


Quantidade de acionistas Pessoa Física de Banco Inter.

6. Por fim, um argumento mais fraco e empírico: mesmo quem usa o banco Inter regularmente, tem outro banco por diversos motivos como por exemplo, insegurança nesse novo modelo de banco sem agências, dificuldade de aumentar limite de cartão de crédito mesmo com envio de contracheque (tá lembrado do índice de Basiléia? Eles preferem aumentar outros setores da carteira de crédito). Então mesmo que o cliente seja ativo, hoje, o Inter não é o banco que mais extrai de seu cliente. A ideia é muito boa, faz uma espécie de dumping legalizado, em prol do cliente, a questão é saber se isso é sustentável.


Meu maior ponto não é a qualidade nem a inovação do banco, nisso, creio que todos concordamos, o Inter trouxe uma ideia quase que utópica a realidade e estão fazendo um ótimo trabalho. A questão é o preço que descolou da realidade e se aloca em uma esperança de que algo muito grande aconteça no futuro e todos os produtos e serviços deles (novo modelo de venda de seguros e o superapp por exemplo) vão dar certo. Na minha concepção, quando chega nesse ponto de distorção, muita coisa tem que funcionar, inclusive algumas que de nada tem a ver com o banco (crise e recessão americana, por exemplo) e, assim, acaba virando mais torcida do que uma posição fundamentada.


Obs: esse texto diz a respeito da minha opinião pessoal e da minha carteira, de nada tem a ver com uma análise séria, muito menos indicação de compra ou venda de ativos.


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